quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Realidade laboral - balanço

Tenho 32 anos, acabei o curso há quase 9 anos. Estou desempregada. O meu primeiro trabalho como arquitecta começou em 2004 quando ainda estava a estudar. Juntei-me com uns amigos, começámos a participar em concursos e criámos o nosso próprio atelier. Quando acabei o curso, em 2006, apesar de poder começar logo a trabalhar a tempo inteiro no meu próprio negócio achei que seria enriquecedor ganhar experiência como assalariada e decidi estagiar fora. Combinei com os arquitectos que me acolheram, trabalhar 1 ano a ganhar 250€/mês. Havia gente que estagiava de graça, por isso achei uma boa oportunidade. Trabalhei afincadamente, fiz noitadas e fins-de-semana, sempre sem ganhar mais por isso. Ao fim de um ano o projecto que tinha em mãos ainda não tinha acabado, e como não havia mais ninguém a trabalhar nele a tempo inteiro, convidaram-me a ficar até o trabalho acabar, a ganhar 4€ à hora. Fiquei mais 3 meses, no último mês ganhei mais de 1000€, o que quer dizer que em média fiz mais de 11h de trabalho por dia.

Depois voltei para o atelier que tinha criado com os meus amigos, para perceber em 2009 que como não tinha entrado nenhum trabalho novo nesse ano e como houve um grande trabalho que foi cancelado, não éramos sustentáveis, tínhamos de fechar.

Em Fevereiro de 2010 arranjei um trabalho na I. uma fábrica de projectos, porque aquilo de arquitectura não tinha nada. Ganhava 900€ por mês, não pagavam horas extraordinárias, mas era recorrente fazer noitadas e fins-de-semana. Lembro-me que em 7 meses fiz 6 ou 7 projectos de execução, era copy/paste de uns para os outros, não havia tempo para mais, o importante era produzir e entregar mesmo que depois voltassem para trás (e voltavam sempre). Não conseguia trabalhar assim, morria por dentro a cada entrega, por isso em Agosto anunciei que acabava o projecto que tinha em mãos e ia embora. Nesse mês não tive fins-de-semana.

Em Setembro inscrevi-me num mestrado no IST em Construção e Reabilitação, a área que eu mais gosto, mas não entrei. A vontade de fazer o curso era tanta que me inscrevi isoladamente em 4 cadeiras que frequentei e concluí com aproveitamento. Continuei, sem sucesso, à procura de trabalho na área. Nesse ano lectivo trabalhei em part-time para uma amiga, organizando-lhe os papéis da contabilidade do restaurante, a ganhar 6€/h. Também dei explicações, a uma pré-adolescente que estudava no 8º ano de um colégio.

No Verão decidi fazer de guia turístico por Lisboa, assisti a umas tours, vi as calinadas que se diziam, decidi experimentar, mas acabei por só fazer 2 tours e ganhava 50% do que os turistas quisessem dar (os outros 50% ficavam para a empresa que divulgava os tours). Voltei a candidatar-me ao mestrado e desta vez entrei. Mas tive uma proposta de trabalho, para trabalhar como arquitecta no Porto. Pesaram as propinas do mestrado e o meu desemprego de longa duração, em Setembro de 2011 mudei-me para o Porto.

Estive a trabalhar para um arquitecto, que ainda não tinha facturado nesse ano. Ajudei-o a encarreirar, apareceu trabalho, ele estava em Moçambique e eu cá, a ideia era haver uma parceria, uma sociedade (eu ganharia uma percentagem), mas nunca se falou em haver uma relação normal de patrão-empregado. O dinheiro começou a entrar, o arquitecto deu-me 500€ depois de 1 mês e meio a trabalhar para ele e mais de 20.000,00€ terem entrado (para o bolso dele). Aguentei até ao Natal, depois percebi que ele não era uma pessoa séria e que não tinha intenção de me pagar, por isso vim-me embora.

Estive o mês de Janeiro todo activamente à procura de trabalho, telefonava, mandava emails, ia bater à porta dos ateliers. Fui a cerca de 60 ateliers, telefonei a mais de 100 e mandei emails a mais de 200. Sem sucesso. Decidi virar-me para outras áreas.

Trabalhei 2 meses, a fazer vendas porta-a-porta na optimus-clix. Era péssima, assim que percebia que estava a incomodar ou que as pessoas não estavam interessadas, em vez de insistir parava. Os níveis de frustração ao fim de cada noite eram imensuráveis. Em 2 meses de trabalho recebi 180€ (era trabalho pago à comissão, mas só a partir de 5 vendas é que se ganhava mais do que a base e eu nunca cheguei a esse valor). Não tinha perfil para aquilo, saí. Entre Fevereiro e Abril realizei 4 oficinas cada uma com cerca de uma semana de duração, de artes plásticas para crianças com uma amiga. Uma oficina de máscaras na Casa Museu Guerra Junqueiro, outra de pinturas com corantes naturais, outra de descoberta dos animais que vivem neste jardim e finalmente uma de construção de maquetes com objectos do dia-a-dia, estas três na Biblioteca Almeida Garrett. Ganhava 6€/h, mas nunca sabia quando havia oficinas e se se inscreviam crianças suficientes para a sua realização.

Em Abril comecei a servir às mesas, ao jantar, num restaurante na baixa. Ganhava 3€/h. É um trabalho muito mais confortável, simples e directo. Fácil de executar, é importante estar atenta aos clientes, ser simpática e célere. No fim do mesmo mês, tive uma conversa informal com um arquitecto amigo de amigos, a quem desabafei que para ganhar mal, preferia estar a trabalhar na minha área. No dia seguinte comecei a trabalhar para ele em part-time, a ganhar 3.5€/h.

Ainda estive 3 meses e pouco a trabalhar durante o dia no atelier e à noite no restaurante. Mas as coisas estavam a correr bem no atelier, o arquitecto pediu-me mais horas e eu larguei o restaurante. Continuei no atelier, trataram-me muito bem, estive 1 mês sem ir trabalhar por causa de um acidente e pagaram-me como se tivesse ido todos os dias. Recebi um prémio de produtividade no fim do ano e em Janeiro comecei a fazer o estágio profissional do IEFP que fez com que eu passasse a receber 700€/mês. Durante 9 meses. Entrou mais gente no atelier, mas passou a haver menos trabalho e quando o estágio acabou o arquitecto disse que não podia contratar-me. Voltou atrás quando percebeu que me faltavam 3 meses de descontos para poder aceder ao subsídio de desemprego e fez-me um contrato de desenhadora por 3 meses. Em Janeiro de 2014, depois de quase 2 anos a trabalhar naquele atelier, vim-me embora. No dia seguinte havia um anúncio para recrutamento de um estagiário para o atelier.

Em 2014 fiz um Curso Intensivo de Gestão na Universidade Católica do Porto, pago pelo IEFP, que durou até Abril. Por 6€/h trabalhei para familiares, a fazer o inventário de um armazém onde tinha sido depositado todo o conteúdo de uma casa (móveis, loiça, quadros). Em Junho fiz o Certificado de Competências Pedagógicas (ex-CAP) na Unicenter (pago por mim). Fiz babysitting por 5€/h. Também por 5€/h ajudei uma amiga a organizar papéis e a organizar a casa dela. Procurei, fazendo vários contactos, mas sempre sem sucesso, trabalho na minha área. Cancelei a minha inscrição na Ordem dos Arquitectos. Fui a uma entrevista, para trabalhar numa cafetaria, em que receberia 325€/mês sem contrato por 8h de trabalho por dia (não tive oportunidade de recusar porque ofereceram o trabalho a outra pessoa). Fui a uma entrevista para fazer vendas e ganhar à comissão, mas recusei com base na minha experiência prévia. Fui a uma entrevista para trabalhar numa imobiliária, mas novamente pedem investimento sem pagamento, com a promessa que boas comissões virão mais tarde. Decidir arriscar, comecei uma mini-formação/sessão de esclarecimento, que durava duas semanas, mas conheci (em ambiente familiar no qual confio) uma antiga trabalhadora da empresa que me avisou da falta de carácter das pessoas responsáveis, interrompi. Acabou-se o subsídio de desemprego. Em Novembro comecei um Curso de Técnico de Multimédia no Cesae, pago pelo IEFP. O curso incluía uma formação prática em contexto de trabalho (não remunerado), com a duração de 3 meses que estou a realizar agora.