quinta-feira, janeiro 31, 2008

Se por acaso (me vires por aí) - [JP Simões e Luanda Cozetti]




Se por acaso me vires por aí
Disfarça, finge não ver
Diz que não pode ser, diz que eu morri
Num acidente qualquer
Conta o quanto quiseste fazer
Exalta a tua versão
Depois suspira e diz que esquecer
É a tua profissão


E ouve-se ao fundo uma linda canção
De paz e amor


Se por acaso me vires por aí
Vamos tomar um café
Diz qualquer coisa, telefona, enfim
Eu ainda moro na Sé
Encaixotei uns papeis e não sei
Se hei-de deitar tudo fora
Tenho uma série de cartas para ti
Todas de uma tal de Dora


E ouvem-se ao fundo canções tão banais
De paz e amor


Se eu por acaso te vir por aí
Passo sem sequer te ver
Naturalmente que já te esqueci
E tenho mais que fazer
Quero que saibas que cago no amor
Acho que fui sempre assim
Espero que encontres tudo o que quiseres
E vás para longe de mim


E ouve-se ao fundo uma velha canção
De paz e amor


Na sexta-feira acho que te vi
À frente da Brasileira
Era na certa o teu fato azul
E a pasta em tons de madeira
O Tó talvez queira te conhecer
Nunca falei mal de ti
A vida passa e era bom saber
Que estás em forma e feliz

E ouve-se ao fundo uma triste canção
De paz e amor.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

molusco contagioso

Há uns meses pensava que tinha um pêlo encravado, mas o tempo passou e não era, para além de terem surgido mais ao pé... novos sinais, pensei eu... mas não! Designam-se por molusco contagioso e são um vírus, sexualmente transmissível (logo agora que eu sou uma puritana e já não tenho um comportamento promíscuo).

Posso ter o vírus há muito tempo e só se ter manifestado agora, mas a verdade é que o meu homem não tem, por isso não sei quem me transmitiu (e não me apetece começar a telefonar a pessoas com quem já não falo a algum tempo, só para perguntar "Tens molusco contagioso?").

Por isso hoje fui mais uma vez ao centro dermatológico/cirúrgico, no Jardim Constantino, ter com o Dr. Rui Temido (que foi quem me tirou o sinal nas costas e as verrugas nos pés). Esperei quase 1 hora para ser atendida e estava à espera de ser uma intervenção semelhante à anterior (ver junho 2006), mas ali mesmo, no consultório de atendimento, uma menina (enfermeira provavelmente) disse para eu baixar as calças...

Comecei a descalçar-me...
_ Não, não, é só baixar as calças.
_ Mas convém descalçar um sapato, para não ficar presa e conseguir abrir as pernas.
_ Não, não, tire só a parte de cima.
_ A parte de cima?
_ Não, desculpe, a parte de baixo. Ah, ok, tem razão, descalce lá então um sapato. Deite-se aqui (e apontou para a marquesa).
Deitei-me, com uma perna das calças despida e outra vestida, de meias e 1 sapato. O médico aproximou-se...
_ Ah, já os estou a ver, são estes? ou há mais? (e arranca-os com uma pinça).
_ Aí são 4, mas na parte de cima, na zona pública, há mais 2.
_ 2? só vejo 1 (zás), onde está o outro?
_ Mais pequeno, por cima do clitóris.
_ Não estou a ver, onde?
(eu, que estava deitada, sento-me para mostrar)
_ Aqui!
_ Ah! Deite-se para trás, (zás), já está. Se aparecerem mais, venha cá outra vez. Logo à noite ponha betadine nas feridas, elas depois vão fazer crosta e cair. Já se pode vestir. (virando-se para a enfermeira) Ponha aqui umas compressas.

Eu visto-me, agradeço e despeço-me. Pensei que fosse mais complicado, mas foi sem dúvida, estranho!

quinta-feira, janeiro 17, 2008

decisões

Tenho andado a pensar muito sobre a minha vida ultimamente. A mínima decisão que tome, tem consequências, por isso gosto de pensar e tomá-las conscientemente. Mas não é simples, pesar todas as consequências e escolher. E adiar essas decisões também tem consequências, também é uma espécie de decisão (a não-decisão). Por isso ando dividida e tenho adiado as decisões, vou conseguindo viver com as consequências desse adiamento, mas sei que mais tarde ou mais cedo as consequências serão maiores, porque terá de haver uma escolha.

Só não gosto deste sentimento, parece que ando a esconder algo de alguém, que me estou a preparar para algo que já sei que vai acontecer, e as outras pessoas não estão, por isso estou a fazer batota... mas não estou, eu só tento pensar sobre tudo e todas as hipóteses (claro que o resultado é esta cabecinha "all fucked up").

Acho que a maior parte das pessoas que faz isto que eu faço vive paranóica e sempre a olhar para trás, mas eu não! Eu penso sobre isto tudo e depois relativizo, desdramatizo, penso "ainda n aconteceu, pode até nem acontecer, é pensamento n é realidade", mas estou preparada para quando acontecer, o que me dá um ar frio e calculista, quando na realidade sou só racionalista e tão sensível, que sinto necessidade de racionalizar tudo para não me magoar.

Tem a vantagem de estar prevenida e não ser apanhada de surpresa (porque não tomo nada como certo)e a desvantagem de não disfrutar loucaamente, nem me atirar de cabeça a coisa nenhuma.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

ipod I

Sabem aqueles filmes que a certa altura começam a passar uma série de imagens do quotidiano com uma música a acompanhar, sem diálogos, sem nada? Há um alheamento, uma alienação, uma separação da realidade.... eu tenho andado assim. A banda sonora é o shuffle do ipod (com música variadíssima, desde Marisa Monte a Hot Chip, passando por Bach, Jamiroquai, Clã, Thom Yorke...), as imagens do quotidiano são o meu dia a dia (as minhas caminhadas pelo centro de lisboa, cortar cartão canson para fazer maquetes, observar as pessoas no metro...).

Estou a delirar! Ontem passei no Rato à hora de ponta, a uma velocidade alucinante, desviando-me das pessoas e a ouvir "Aleluia" interpretado por Jeff Buckley! Foi Brutal, juro que se tivesse voz teria berrado "Aleeeeluuuuuuuuuiiiiiiaaaaaaa" e assustado aquela gente toda!

Hoje no metro tive uma visão meio surrealista (porque reparei exactamente nas pessoas, nas suas disposições e no que estavam a fazer, enquanto ouvia música). Só observei metade de uma carruagem, porque estava sentada a meio desta e não me apeteceu olhar para trás.
Ao fundo, estavam 5 membros de uma família cigana, mal vestidos, em tons cinza, com ar algo asqueroso e buçal. 2 mulheres, que iam quietas, 2 homens, que provocavam um miúdo de 5 anos, que ora saltava para cima dos bancos, ora para cima dos homens, ora rasgava um jornal incentivado por esses homens, deixando os bocados de papel no chão (saíram e deixaram o espaço que ocupavam imundo).
Não muito longe de mim estava uma miúda, virada para mim com um ar enconadinho (desculpem a expressão, mas ela tinha mesmo ar de quem precisava de umas trancadas valentes), muito vestida e abotoada em tons demasiado sombrios para a idade que aparentava, com um ar muito direito (como se se apertasse toda para nada ou ninguém entrar), pernas fechadas e agarrada à mala e ao código civil. Os olhos chochos, vazios, sem brilho... não é que aparentasse ser infeliz, simplesmente aparentava que nunca viveu, nem procura fazê-lo...
O homem que estava sentado mais próximo de mim, na diagonal era assustador. Gordo e alto, estava sentado como se tivesse acabado de desistir de uma corrida. Mas o seu olhar perdido e esbugalhado e o facto de insistir em enfiar o dedo gordo (que mal entrava) no buraco do botão do casaco conferia-lhe um aspecto meio porno meio oligofrénico.
O resto das pessoas estavam de costas para mim, o que as descaracteriza completamente devido à minha alienação, claro que senti uns perfumes enjoativos e vi umas cabeleiras mais ou menos coloridas e/ou compridas.

Estou maravilhada...