domingo, março 26, 2006

426. livro do desassossego, bernardo soares

Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas da nossa mesma alma, é o princípio da sabedoria. Considerar isto em pleno meio dessa angústia é a sabedoria inteira. No momento em que sofremos, parece que a dor humana é infinita. Mas nem a dor humana é infinita, pois nada há humano de infinito, nem a nossa dor vale mais que ser uma dor que nós temos.

Quantas vezes, sob o peso de um tédio que parece ser loucura, ou de uma angústia que parece passar para além dela, paro, hesitante, antes que me revolte, hesito, parando, antes que me divinize. Dor de não saber o que é o mistério do mundo, dor de não nos amarem, dor de serem injustos connosco, dor de pesar a vida sobre nós, sufocando e prendendo, dor de dentes, dor de sapatos apertados - quem pode dizer qual é maior em si mesmo, quanto mais nos outros, ou na generalidade dos que existem?

Para alguns que me falam e me ouvem, sou um insensível. Sou, porém, mais sensível - creio - que a vasta maioria dos homens. O que sou, contudo, é um sensível que se conhece, e que, portanto, conhece a sensibilidade.

Ah, não é verdade que a vida seja dolorosa, ou que seja doloroso pensar na vida. O que é verdade é que a nossa dor só é séria e grave quando a fingimos tal. Se formos naturais, ela passará assim como veio, esbater-se-á assim como cresceu. Tudo é nada, e a nossa dor nele.

Escrevo isto sob a opressão de um tédio que parece não caber em mim, ou precisar de mais que da minha alma para ter onde estar; de uma opressão de todos e de tudo que me estrangula e desvaira; de um sentimento físico da incompreensão alheia que me perturba e esmaga. Mas ergo a cabeça para o céu azul alheio, exponho a face ao vento inconscientemente fresco, baixo as pálpebras depois de ter visto, esqueço a face depois de ter sentido. Não fico melhor, mas fico diferente. Ver-me liberta-me de mim. Quase sorrio, não porque me compreenda, mas porque, tendo-me tornado outro, me deixei de poder compreender. No alto do céu, como um nada visível, uma nuvem pequeníssima é um esquecimento branco do universo inteiro.

terça-feira, março 14, 2006

marginais parasitas

Há pessoas na nossa sociedade, que vivem à margem desta, que passam a vida a olhar para o próprio umbigo, despreocupadas e desresponsabilizadas do que as rodeia. Porque são privilegiadas, nunca dependeram dela para a sua sobrevivência, então dão-se ao luxo de a ignorar. E como não cumprem os deveres, nem usufruem dos direitos desta, não contribuem para o seu funcionamento para que outros, que não têm as mesmas condições, possam. Não pagam impostos, nem segurança social, nem ordenados, nem iva, também não têm reformas, nem cartão de saúde, nem subsídios... Vivem noutra realidade onde nada destas coisas são necessárias, portanto são dispensáveis, ignoradas.

Até ao dia em que o luxo acaba, e elas começam a precisar de meios para sobreviver, aos quais não têm acesso porque nunca na vida descontaram para um dia mais tarde poderem ter direito a eles. Sofrem então as consequências de terem vivido uma vida inteira como se o que as rodeassem nada tivesse a ver com elas. Começam a perder bens materiais até não restar nada e depois começam a não ter acesso a bens essenciais, como electricidade, água, comida. Não há recuperação possível, porque nunca trabalharam na vida, não sabem fazer dinheiro, porque nunca o fizeram, sempre o tiveram e gastaram. Entram na miséria e provavelmente acabam sem-abrigo esfomeados.

domingo, março 12, 2006

Estava com medo

de me tornar completamente insensível e indiferente a tudo o que me rodeia. Porque estava a sentir que isso, estava mesmo a acontecer, tal era o esforço para não dar importância às coisas e não me deixar afectar por elas. Mas não! Ainda há pessoas e assuntos que me afectam mesmo, seja pela positiva ou pela negativa. Mas há já algum tempo que não deixava que isso acontecesse de forma tão intensa, como agora, que tenho este nó no estômago. Se eu não fizer nada em relação a isso, é uma forma de não dar importância ou de me enganar? Não sei bem, mas acho que não vou fazer nada...e mesmo assim, acho que algo de mau vai acontecer, e espero não explodir, não me descontrolar...
Estou a começar a aperceber-me das desvantagens desta minha mudança, tenho de encontrar um meio termo, algures onde me sinta bem, menos angustiada, mais apoiada, menos indiferente. Ainda por cima, estão a surgir assuntos sobre os quais eu vou ter de tomar uma decisão, uma escolha, talvez até tomar um partido...e eu não queria!
Isto está-me a incomodar!